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Para bem noticiar a Educação
Infantil
Além dos jornalistas, o Seminário
A Cidadania Antes dos Sete reuniu também diversos
especialistas na área de Educação Infantil.
Juntos, esses profissionais debateram os resultados da análise
quantitativa e qualitativa do noticiário produzido a
respeito dessa temática pelos 50 mais importantes jornais
brasileiros.
A seguir, são apresentadas as
principais avaliações e recomendações
elaboradas ao longo do seminário. O estudo foi veiculado
na 11ª edição da revista Infância na
Mídia, lançada durante o encontro. Esta
publicação é uma realização
da ANDI e do Instituto Ayrton Senna, com apoio do UNICEF, da
Fundação Orsa e do Ministério da Educação.
Essa edição pode ser solicitada à ANDI
por e-mail (adm@andi.org.br)
ou para download no site.
CONTEXTO
A conclusão dos participantes
do seminário, promovido pela Fundação Orsa
e pela ANDI, é de que há muita desinformação
na mídia sobre a Educação Infantil, sobre
a legislação e as políticas públicas
destinadas às crianças de 0 a 6 anos. De maneira
geral, apontam eles, os meios de comunicação continuam
dependentes das fontes oficiais, o que resulta em matérias
superficiais, pouco ou nada questionadoras. O resultado disso
é uma sociedade diariamente mal informada, que não
consegue apontar caminhos e propor mudanças consistentes
em favor desta faixa etária.
Os principais fatores que contribuem
para a limitação da cobertura jornalística
acerca da primeira infância são:
O estudante e o profissional de jornalismo não recebem
informações adequadas para trabalhar com questões
sociais, entre as quais a situação da infância
brasileira.
Desconhecimento por parte dos jornalistas sobre a especificidade
da Educação Infantil. Grande parte das matérias
ainda trata a pré-escola como uma fase de preparação
para o Ensino Fundamental, quando, na realidade, é
uma etapa na qual o desenvolvimento da criança é
abordado de maneira singular e diferenciada. Como resultado
desse equívoco conceitual, uma matéria jornalística
pode evidenciar como positiva uma pré-escola
que organize o espaço da sala de aula com fileiras
de carteiras e que simplesmente alfabetize as crianças.
As creches, por sua vez, são vistas apenas como locais
seguros para as mães deixarem seus filhos. Ignora-se,
por exemplo, que as creches são espaços educativos
e que devem proporcionar condições para que
a criança desenvolva suas capacidades motora, sensorial,
cognitiva, afetiva e social, entre outras.
O jornalista não está habituado a lidar com
o processo educacional. Descontextualizado, resume seu trabalho
aos fatos. O resultado é uma cobertura imediatista,
pouco aprofundada, com o repórter atendo-se a pautas
burocráticas, como início do ano letivo, inaugurações,
acidentes, etc.
A especialização em educação
e a busca de conhecimento sobre creches e pré-escolas
são, normalmente, resultado de um esforço individual.
Quando o jornalista muda de empresa ou de editoria, diminuem
também o espaço e a qualidade de matérias
sobre o tema naquele veículo.
A chamada grande imprensa privilegia os assuntos
de economia e política, mas não relaciona esses
temas ao ensino. Quando a educação ganha destaque,
em geral o foco está nos ensinos superior e médio,
no vestibular e na pesquisa científica. Isso reflete
a pouca importância atribuída à infância
no contexto econômico do País, bem como um escasso
conhecimento sobre a importância de experiências
de qualidade nesta fase da vida.
Dificuldade para obter estatísticas confiáveis
nos Estados e Municípios, principalmente quando a matéria
tem enfoque crítico.
Jornalistas desconhecem a legislação e a normatização
da Educação Infantil. Focam questões
de legislação apenas quando ela não está
sendo cumprida. Além disso, não alertam a sociedade
para as importantes e necessárias mudanças decorrentes
das novas determinações contidas na lei.
Nos jornais de grande circulação, a cobertura
municipal se reduz à política das capitais do
Estado e de algumas cidades pólo. Como a Educação
Infantil é um nível de ensino municipalizado,
a incapacidade de acompanhar de perto a realidade dos municípios
compromete ainda mais a cobertura jornalística. Quando
a regionalização de informações
nacionais acontece, limita-se à regionalização
de dados e estatísticas. Pelo distanciamento com os
Municípios e pela multiplicidade de situações
encontradas, não se consegue traduzir a realidade local.
A BUSCA DE FONTES
A qualidade da cobertura jornalística
sobre Educação Infantil esbarra, sobretudo,
na reduzida diversidade de fontes consultadas pelos repórteres.
A falta de uma agenda própria leva boa parcela da
imprensa a se pautar pelos poderes públicos municipais,
estaduais ou federal. Mesmo quando os temas abordados não
são gerados por fontes oficiais, estas são as
mais ouvidas.
Paralelamente, há dificuldade para identificar quem
responde pela Educação Infantil. Nos Poderes
Executivos, nem todas as esferas possuem um responsável
pela área.
Fontes viciadas: pela facilidade de encontrá-las,
pela importância que possuem ou por interesse destas.
Assim, alguns entrevistados costumam aparecer com muita freqüência
nas matérias.
Dificuldade de identificar fontes da sociedade civil: ONGs,
líderes comunitários, líderes religiosos
e associações. Normalmente, essas instituições
são boas fontes, inclusive para se chegar às
famílias.
Diretores de estabelecimentos de ensino raramente fornecem
contatos das associações de pais e mestres.
Dificuldade de acesso dos jornalistas aos estabelecimentos
de Educação Infantil, por questões políticas
ou de burocracia, mesmo em matérias sem enfoque negativo.
A escola é o lugar mais fácil para encontrar
outros sujeitos da reportagem, como pais, alunos e profissionais.
Diretores, que são fontes importantes, desconfiam de
jornalistas, com medo de sofrer punições ou
de que estes transgridam o Estatuto da Criança e do
Adolescente ao retratar a criança. Essa dificuldade
é mais comumente observada em escolas públicas.
O tempo curto para apuração impede que outras
fontes sejam ouvidas, inclusive a família, e que haja
contextualização do tema abordado. Falta também
espaço para publicar matérias mais aprofundadas,
em que a família e a comunidade apareçam como
principais sujeitos e fontes nas reportagens. Esse espaço
poderia ser garantido em caderno semanal ou em abordagens
específicas aos sábados e domingos.
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