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 A relevância da Educação Infantil 

     Estamos vivendo um momento histórico muito oportuno para a reflexão e a ação em prol das crianças. Cada vez mais, a educação e o cuidado na primeira infância são tratados como assuntos prioritários de governo, organismos internacionais, organizações da sociedade civil e por um número crescente de países em todo o mundo.

    No Brasil, dispomos de legislação avançada na área – destacando-se a Constituição Federal de 1988, o Estatuto da Criança e do Adolescente de 1990, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação de 1996 –, temos acesso a pesquisas internacionais e estudos nacionais que apontam para os benefícios do investimento na primeira infância.

    A ciência mostra que o período que vai da gestação até o sexto ano de vida, particularmente de 0 a 3 anos, é o mais importante na preparação das bases das competências e habilidades no curso de toda a vida humana.

    Os extraordinários avanços da neurociência têm permitido entender um pouco melhor como o cérebro se desenvolve. Particularmente do nascimento até os 3 anos de idade, vive-se um período crucial, no qual se formarão mais de 90% das conexões cerebrais, graças à interação do bebê com os estímulos do ambiente. Acreditava-se que a organização cerebral era determinada basicamente pela genética; agora, os cientistas comprovaram que ela é altamente dependente das infantis.

    Sob o ponto de vista da Educação Infantil, antes mesmo das pesquisas sobre o cérebro, já se haviam constatado sensíveis progressos nos níveis de aprendizagem e desenvolvimento das crianças que freqüentaram a educação pré-escolar. Um estudo significativo nesse aspecto foi feito pelo Projeto Pré-Escolar High/Scope Perry, em Michigan, nos Estados Unidos, que acompanhou crianças de famílias de baixa renda desde a época que participaram do projeto pré-escolar, com 3 ou 4 anos, até os 27 anos. A avaliação longitudinal demonstrou que o grupo que recebeu atendimento pré-escolar obteve, a longo prazo, níveis mais altos de instrução e renda, e menores índices de prisão e delinqüência.

    A relação custo–efetividade do programa indicou benefícios estimados em sete vezes o custo original do programa. Os benefícios ocorreram como resultado da economia produzida pela redução nos gastos de educação primária (pela diminuição da evasão e da repetência), saúde, previdência social e sistema prisional combinada com o aumento da produtividade ao longo do tempo.

O PAPEL DA IMPRENSA

    O Seminário A Cidadania Antes dos Sete, promovido pela Fundação Orsa e ANDI, realizado em São Paulo nos dias 24 e 25 de setembro de 2001, reuniu 40 profissionais de mídia de 20 Estados brasileiros para debater a cobertura jornalística do tema Educação Infantil no País. Os participantes elaboram ainda recomendações para estimular a qualificação e a ampliação dessa cobertura. As sugestões aprovadas são as seguintes:

  • Realizar uma cobertura menos pontual, abordando o tema da Educação Infantil de forma sistemática, ética e responsável. Trazer a criança para o centro da pauta, mesmo que ela ainda não figure como prioridade na agenda das políticas públicas. Relacionar a Educação Infantil a economia, cultura, história, política, saúde e ambiente, situando a educação e o cuidado da primeira infância como ponto estratégico para o desenvolvimento humano e social.

  • Contextualizar a importância dessa fase educacional nas várias pautas relacionadas aos direitos humanos e ao desenvolvimento humano.

  • Informar a sociedade sobre a revolução conceitual que ocorreu em relação à Educação Infantil e aos direitos das crianças nas últimas duas décadas. Utilizar exemplos claros para que leitores, ouvintes e telespectadores compreendam seus direitos e as mudanças na legislação.

  • Tratar do direito ao acesso a creches e pré-escolas, destacando o direito a uma educação de qualidade. Por exemplo, se as mães estão protestando por falta de vaga nas creches, pode-se utilizar esse “gancho” para produzir matérias mais elaboradas e provocativas, tanto em relação ao acesso quanto à qualidade.

  • Revelar diferenças entre a Educação Infantil oferecida às crianças de famílias de alta e de baixa rendas.

  • Ressaltar a igualdade de direitos das crianças com necessidades educativas especiais, combatendo preconceitos até mesmo na própria família, o que restringe as possibilidades da criança e seu interesse pela educação.

  • Buscar conhecimentos legais, científicos e pedagógicos que subsidiem debates e questionamentos das informações oficiais. Estreitar relações com especialistas que rapidamente possam esclarecer pontos específicos sobre legislação e gestão, o que possibilita uma diversificação de enfoque na cobertura da Educação Infantil.

  • Investigar o real benefício que as ações governamentais possam trazer para as crianças. Questionar como serão investidos os recursos, quantas crianças serão atendidas e quantas ficarão fora da creche e da pré-escola. Fiscalizar a aplicação correta dos recursos financeiros destinados à criança, por meio da consulta ao Conselho Municipal de Educação.

  • Romper com o vício de destacar apenas o número de vagas disponíveis, a segurança e a merenda escolar na instituição pública, deixando de lado aspectos pedagógicos e relacionais. Por exemplo, ao cobrir a inauguração de uma creche, em vez de valorizar apenas a estrutura física e o número de vagas, levantar informações sobre o projeto pedagógico, a formação dos profissionais, a opinião de mães, pais e da criança. Incluir a família como um dos principais sujeitos das matérias.

  • Priorizar matérias “de campo” – saindo da redação –, para captar melhor os elementos que cercam a realidade da criança e podem ser decisivos para sua formação.

  • Ao visitar um estabelecimento, observar se os desejos e as necessidades das crianças estão sendo respeitados. Prestar atenção na forma como elas interagem entre si e com os profissionais desses estabelecimentos, nos diferentes espaços, e com os materiais pedagógicos. Tratar a criança como fonte protagonista, com características e raciocínio peculiares. Não induzi-la a respostas nas entrevistas, considerando que ela possui um tempo de compreensão próprio.

  • Cobrir experiências de qualidade de ensino, tanto da iniciativa privada quanto do poder público. Contemplar e respeitar diferenças regionais e experiências locais. Divulgar projetos de Educação Infantil, permitindo que a sociedade se torne parceira no desenvolvimento e na fiscalização dessas ações.

  • Consultar diferentes atores, mesmo quando o principal argumento da reportagem seja oriundo de fontes oficiais. Dar visibilidade a conselhos escolares, conselho municipal de educação, de direitos da criança e do adolescente e conselhos tutelares, chamando a atenção da sociedade para o papel de cada um. Utilizar lideranças comunitárias como fonte, buscando os vários lados de uma mesma história. Buscar a posição do Legislativo em questões como gestão e financiamento da Educação.

  • Abordar a realidade das crianças de 0 a 6 anos em outras áreas, como saúde, assistência social, justiça, lazer e cultura. Ampliar a investigação sobre as condições de desenvolvimento da criança em locais como residências e espaços comunitários.


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